Guia do Cuidador de Colónias de Gatos

Ser cuidador de uma colónia é ingrato

Há anos que me dizem que a Animalife não quer saber dos cuidadores de colónias. Têm parte de razão, e é por aí que quero começar.

Cresci com uma colónia nas traseiras de casa. Foi de lá que veio a gata que ficou com os meus pais, capturada pela minha mãe a pedido de uma amiga que depois não a quis, porque afinal não era macho. Estava ali porque ninguém tratava daquela colónia. Na altura, as coisas eram assim.

Mais tarde fiz formação em CED, dada pela Animais de Rua. Entre 2011 e 2014 fiz muitas capturas, quase sempre à noite. Fui interpelado por moradores que queriam saber o que fazia ali e a polícia pediu-me a identificação mais vezes do que consigo contar, e de todas elas tive de explicar o que estava a fazer e porquê. Sei o que é esperar horas por um gato que não entra na armadilha porque alguém deu comida antes da hora marcada. Fiz o recobro pós-cirúrgico em minha casa durante anos, antes de devolver os animais ao sítio de onde tinham vindo. Um deles, de uma colónia que controlei na Amadora, acabou por ficar comigo.

E esterilizei uma colónia inteira, vi aquilo estabilizado, e depois chegou uma denúncia à câmara e os gatos foram retirados para abate. Todo o trabalho desfeito por uma queixa, porque nada daquilo estava enquadrado e nenhum de nós tinha o que quer que fosse na mão para o defender.

Hoje já não faço capturas, e explico porquê, para que não se confunda com falta de vontade. Uma pessoa a capturar resolve uma colónia. Um país com regras claras, com municípios que cumprem as suas obrigações e com cuidadores que sabem o que podem exigir, resolve milhares. É onde acho que o meu tempo é hoje mais útil, e é por isso que a Animalife escreveu este guia em vez de ir a mais um quintal.

Agora a parte em que têm razão, e a parte em que não têm. Em quinze anos, a Animalife foi sempre fazer aquilo que ninguém estava a fazer. Criámos o Banco Solidário Animal em 2012 para apoiar as associações, quando o Estado não as apoiava. Criámos uma resposta social-animal para as famílias que estavam a entregar os seus animais por não conseguirem sustentá-los, quando nenhuma entidade oficial olhava para elas. Demonstrámos que era preciso, e hoje o Estado já apoia associações e famílias, em alimentação e em cuidados médico-veterinários. Não fomos para os animais errantes porque essa responsabilidade é dos municípios e havia associações a fazer esse trabalho há muitos anos, e não nos pareceu útil sermos mais uma a fazer o mesmo.

O que nunca fizemos foi alguma coisa pensada de raiz para quem cuida de uma colónia sozinho. É verdade, e não vou fugir disso.

Também não é por acaso que isto aconteceu assim. O Banco Solidário Animal foi pensado para associações, umas dedicadas a cães, outras a gatos, com ou sem alojamento. Era assim que o país estava organizado: poucas entidades, com estrutura, a aguentar muito. A figura do cuidador de colónia simplesmente não existia. A lei que acabou com o abate é de 2016, mas foi a partir de 2018, quando começou a ser aplicada, que a escala mudou. Os gatos deixaram de desaparecer e passaram a ficar, e aquilo que era trabalho de associações passou também a ser feito por milhares de pessoas a título individual, sem associação, sem NIF, sem acesso a apoios e sem qualquer figura legal que as reconhecesse. Depois veio a pandemia e transformou o problema noutra coisa. Durante dois anos quase não se esterilizou, os serviços estavam fechados ou reduzidos ao essencial, e as colónias continuaram a reproduzir-se como sempre fizeram. Quem apanhou o resultado disso foram vocês, um a um, sem apoio nenhum. Foi o sistema que mudou de forma sem mudar as regras, e são vocês que pagam essa diferença todos os meses.

O que nunca ficou respondido, nem por nós nem por mais ninguém, é o que acontece a quem cuida de uma colónia quando o município não responde e não há associação por perto, ou a que há não tem capacidade. Essa pessoa fica sozinha. É a falha seguinte, e é para ela que este guia foi escrito.

Este guia foi escrito depois de anos a ouvir-vos, com o tempo e a paciência que ninguém teve para vos explicar isto. Não resolve tudo, e seria desonesto dizer que sim. O propósito é reunir, de forma organizada, informação que hoje está dispersa: o que diz a lei, o que o vosso município é obrigado a fazer, como se pede, a quem se pede, e o que fazer quando não respondem. Não vos torna mais fortes por ser bonito. Torna-vos mais difíceis de ignorar por ser exato.

Exige também alguma coisa de vocês. Há aqui um capítulo inteiro sobre o que se espera de quem cuida de uma colónia, e não está lá por cortesia: está lá porque é dele que depende a sobrevivência dos animais e a paz com quem vive à volta.

Nada do que está aqui diminui o que vocês recebem de volta, e quem cuida sabe exatamente do que estou a falar. Este guia não é sobre isso. É sobre tudo o resto, que não devia ser assim.

Uma última coisa, para não ficar por dizer. Foi assim que aconteceu com as associações e com as famílias: primeiro percebemos o que era preciso, depois demonstrámo-lo, e hoje há apoios do Estado que não existiam. Quero que aconteça o mesmo convosco. Para isso precisamos de vos conhecer, e é a única coisa que vos vamos pedir.

Rodrigo Livreiro
Presidente da Direção da Animalife

Como usar este guia →

Todos os capítulos

  1. Ser cuidador de uma colónia é ingrato · Uma carta do presidente da Animalife a quem cuida de colónias.
  2. Como usar este guia · Como consultar o guia e três coisas a saber antes de começar.
  3. 1. O que é uma colónia e o que diz a lei · O que é uma colónia, o fim do abate e o que é o programa CED.
  4. 2. Quem é responsável pelo quê · O que cabe à câmara, ao médico veterinário municipal, ao centro de recolha e a si.
  5. 3. O papel da junta de freguesia · O que a junta pode fazer por si, o plano de bem-estar animal e os abrigos.
  6. 4. O dinheiro existe · Os apoios da DGAV que existem, quanto valem e como chegam à sua colónia.
  7. 5. Ser reconhecido como cuidador · Como pedir para ser reconhecido pela câmara, passo a passo.
  8. 6. A colónia autorizada · O que muda quando a câmara autoriza a colónia e as regras a cumprir.
  9. 7. O que se espera de si · Os cinco cuidados que os serviços vão avaliar na sua colónia.
  10. 8. Em nome de quem ficam os gatos · Porque é que os gatos não devem ficar registados em seu nome.
  11. 9. Como pedir ajuda e a quem · A quem pedir, conforme o seu concelho, e como escrever o pedido.
  12. 10. Quando não respondem · Os passos a dar, um de cada vez, quando ninguém lhe responde.
  13. 11. Defender a colónia · Argumentos para vizinhos, condomínios, danos e ameaças.
  14. 12. Quando a colónia tem de sair · Quando uma mudança é legítima e o que pode propor em alternativa.
  15. 13. Organizarem-se: associação ou não · Quando vale a pena criar uma associação, e quando não vale.
  16. 14. Capturar e cuidar: onde aprender · Onde aprender a capturar e a cuidar: manuais e formação.
  17. 15. Como é noutros países · Como Espanha e Itália tratam quem cuida de colónias.
  18. 16. Onde procurar ajuda · Onde ir primeiro para cada tipo de problema.

Cuida de uma colónia de gatos? Responder ao questionário para cuidadores de colónias